A Terapia Ocupacional consiste numa área terapêutica rica na sua abrangência, que engloba várias populações intervencionadas, bem como modelos e abordagens possíveis, em que a imaginação poderá ser uma mais-valia na persecução constante por novas e melhores soluções.

No meu percurso enquanto terapeuta, tenho tido oportunidade de contactar de forma direta com pessoas com deficiências complexas. Este contacto levou a que naturalmente procurasse formas de otimizar o desempenho destes indivíduos através de adaptações e procura de dispositivos que compensassem funções perdidas.

Apesar do desenvolvimento tecnológico constante, é ainda possível identificar lacunas de resposta relativas ao produto de apoio, nomeadamente lacunas de solução que produza determinado efeito, evidência de resultados, ou ainda de disponibilização no mercado nacional.

Mas que modelos, que abordagens podemos utilizar para diminuir estas lacunas? Será a intervenção direta e exclusiva na pessoa com deficiência a melhor opção para conseguir os melhores resultados? Não descurando aquilo que são trabalhos de manutenção de competências fundamentais, fará sentido obrigar a pessoa a esforços em sessão numa perspetiva reabilitativa, que muitas vezes não se traduzem em ganhos perpetuados depois de sair da porta do gabinete? Numa questão mais chata e retórica, será a pessoa apenas a pessoa (e será que isto interessa)?

O Modelo de Tecnologias de Apoio e Atividade Humana (MTAAH) engloba quatro componentes, sendo eles indivíduo, atividade, produto e contexto. Significa isto que a pessoa não é apenas a sua individualidade, mas também o que faz, o que utiliza e como, quando, onde é/faz.. Seguindo esta lógica todos estes pontos constituem oportunidades de intervenção. Não constitui uma novidade teórica, mas importa reforçar que o produto para promover a atividade não necessita de ser aplicado exclusivamente ao indivíduo, pode ser aplicado também no contexto físico, entre outros.

No sentido de manipular o ambiente físico independentemente de eventuais limitações de mobilidade, têm sido investigados e desenvolvidos sistemas de domótica, nomeadamente sistemas controlados por voz.

Os sistemas com interfaces de controlo por voz consistem numa possível solução para que indivíduos sem mobilidade funcional controlem dispositivos eletrónicos no ambiente envolvente. São, no entanto, limitados a pessoas com uma fala percetível, o que constitui uma barreira para muitos quadros de disartria, para os quais surgem protótipos de sistemas autoaprendizagem linguística, como o Aladin: Adaptative Speech Interaction for People with Disabilities, associados a sistemas de automação de dispositivos.

Sistemas de domótica, esses, que são tantas vezes fundamentais para otimizar a participação em atividades realizadas em ambiente doméstico ou outros regularmente frequentados. Estes sistemas existem, pelo que faço mais questões aos colegas profissionais de saúde, a pessoas com deficiência e a quem quiser ouvir: Que sistemas destes conhecem? O que fazem? Quanto custam? Quem conhecem que os tenha? Se demoramos a responder a estas questões, então elas remetem-nos para as lacunas acima identificadas. Talvez o conhecimento não esteja devidamente diversificado ou a disponibilização no nosso mercado seja residual.

Felizmente, um pecado mortal tem feito a tecnologia avançar. Cada vez mais queremos automatizar processos no nosso dia a dia, cada vez mais queremos fazer mais com menos esforço. E tem-se conseguido. Ironicamente a preguiça tem criado diligências no mercado para desenvolver sistemas que nos permitam cumprir estes desejos.

Esta é uma das oportunidades da preguiça, e uma das abordagens possíveis para profissionais de saúde: a aplicação de sistemas massificados e disponibilizados para a população geral às pessoas com mobilidade reduzida. Voice assistants como Google Assistant, Alexa e Siri possibilitam a manipulação de dispositivos inteligentes presentes no nosso ambiente, mas são pouco explorados em populações com deficiência. Estima-se que os três sistemas têm taxas de compreensão de falas disártricas semelhantes, na ordem dos 50% a 60%. Indivíduos em que não se verificam quadros disártricos acentuados já poderiam pedir que a televisão ligasse, que o rádio tocasse, poderiam dizer uma palavra chave que enviasse um sinal de alerta ao cuidador, enviar e-mails, fazer chamadas, encomendar comida, abrir estores elétricos ou portas, pedir que a casa seja aspirada, ligar luzes, ligar ventoinhas e aquecedores, abrir uma torneira até, tendo o acessório correto, entre tantas outras. E porque não desenvolver para estes sistemas a autoaprendizagem de diálogo para aplicar futuramente em casos de disartria? E porque não utilizar sensores (luminosidade, humidade, movimento, etc) para automatizar alguns destes processos em situações em que a fala não é funcional?

Falamos de sistemas presentes no nosso mercado, de baixo custo (muito baixo quando comparados a sistemas estruturados de domótica), completamente abertos e que crescem em função das necessidades específicas da pessoa. No entanto não são ainda vistos como ferramentas de intervenção, sendo que algumas sugestões desta possibilidade surgem dos próprios possíveis beneficiários, nomeadamente em plataformas como o Youtube. Só faz sentido que ouçamos. As próprias marcas já ouvem e já trabalham o seu marketing nesse sentido (https://www.youtube.com/watch?v=81uyYKPpWww&ab_channel=Google).

Podemos argumentar que algumas destas tarefas não são essenciais para a realização de uma rotina. É um facto que estes dispositivos não auxiliam na hora de comer, transferir entre superfícies ou vestir. Mas isso não implica que a participação não aumente, nomeadamente no lazer que, perdoem-me o clichê, é uma das áreas que pode fazer a diferença entre “o viver e o estar vivo”, já para não falar numa eventual melhoria na perceção individual de autorrealização.

É importante experimentar isto. A evidência e testemunhos desta aplicabilidade são ainda pouco diversificados e estes sistemas não se encontram incluídos na lista homologada de produtos de apoio, apesar de existirem códigos não direcionados, de enquadramento dúbio, ou códigos para uma das funções isoladas.

 

Rafael Tavares
Terapeuta Ocupacional

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